Made in China

17-toy-factory-portraits

Vida Simples, abril 2013.

“Para  uma criança brincar com um boneco do seu personagem favorito, há 75% de chance de algum trabalhador chinês ter passado  perto de 140 horas mensais em uma fábrica, ganhando cerca de 500 Reais , muitas vezes sendo punido em 10 reais por falar em serviço, manejando ferramentas  perigosas sem ter recebido qualquer tipo de treinamento para isso. A China produz atualmente três quartos de todos os brinquedos vendidos no mundo. As fábricas oferecem moradia, onde seis pessoas dividem  um quarto minúsculo e mais de 50 utilizam o mesmo banheiro.”

Crítica extraída da instalação “The Real Toy Story” do fotógrafo alemão Michael Wolf.

Trabalhadores produzem brinquedos que não podem pagar e mal têm tempo para estarem com seus próprios filhos, num ritmo de trabalho exaustivo e mal remunerado.

Anúncios

Veja como o consumo afeta as crianças!

Ninguém nasce consumista. O consumismo é uma ideologia que se tornou umas das características culturais mais marcantes da sociedade atual, fazendo com que há mais de três décadas as despesas de uma família dobrassem a cada dez anos.

Ao longo da história, a criança passou de um pequeno adulto que trabalhava e era coprovedora da própria família, para um ser humano em desenvolvimento, hipervalorizando a necessidade de ser estimulada e tornando-se foco da atenção como consumidora.

Para o mercado, antes de tudo, a criança é um consumidor em formação e uma poderosa influência nos processos de escolha de produtos ou serviços. Embora não tenha maturidade para decidir, pois não discrimina a realidade da fantasia, as crianças brasileiras influenciam 80% das decisões de compra de uma família (TNS/InterScience, outubro de 2003).

Na televisão, a publicidade é a principal ferramenta do mercado para a persuasão do público infantil, uma vez que a criança brasileira passa em média 4 horas, 50 minutos e 11 segundos por dia, assistindo à programação televisiva (Painel Nacional de Televisores, IBOPE 2007).

A criança, ainda em pleno desenvolvimento e, portanto, mais vulnerável que o adulto, é impactada pelas mídias de massa, estimulada a consumir e sofre cada vez mais cedo com as graves consequências relacionadas aos excessos do consumismo, como: a obesidade infantil, a erotização precoce, o consumo precoce de tabaco e álcool, o estresse familiar, a banalização da agressividade e a violência, entre outras.

Atualmente, a criança hipervalorizada como garantia da continuidade de sua família, tornou todos os meios necessários ao seu desenvolvimento, como: saúde, educação e lazer, uma obrigação dos pais, buscando uma aprovação social.

Muitos casais sentem-se culpados pela ausência e compensam frustrações e inseguranças com bens materiais, buscando maneiras de antecipar seus desejos antes mesmo que estes se deem conta de que querem alguma coisa. Também, em razão do pouco tempo que usufruem com os filhos, os pais temem entrar num embate com estes, sentindo-se ameaçados pela perda do amor dos filhos.

Ocorre que tal comportamento, na verdade, apenas deixa os filhos cada vez mais frustrados, pois se, aparentemente, nada lhes falta, tudo lhes é impossível obter por si só.  Não aprendem a postergar, a fazer escolhas, a suportar um “não” necessários para a estruturação interna, boa autoestima e independência pessoal.

A publicidade foca o público infantil, chamando a atenção com produtos acessíveis nas prateleiras, embalagens de cores vibrantes, associação com personagens de desenhos, identificação com o grupo, dentre outras estratégias.

O consumismo infantil é um problema que não está ligado apenas à educação escolar e doméstica. Embora a questão seja tratada quase sempre como algo relacionado à esfera familiar, crianças que aprendem a consumir de forma inconsequente e desenvolvem critérios e valores distorcidos são de fato um problema de ordem ética, econômica e social, pois contribuem para o desequilíbrio global.

Procure fazer com seu filho atividades que não envolvam a mídia, como passeios no parque, cozinhar, brincar, ler e jogar. Ao ir às compras, explique antecipadamente o que se vai comprar. Também, é decisivo não dar uma infinidade de coisas à criança, tirando-lhe a oportunidade de pensar e aprender a escolher aquilo de que gosta O ideal é esperar o filho sentir falta de algo e pedir aos pais, assim aprenderá a aproveitar a vivência oferecida por cada situação em que for presenteado e desenvolverá  uma relação sadia com as questões de cunho material.

Cristiane Richter