Vamos brincar do que?

Considerando que  o brincar é essencialmente espontâneo, promovendo na criança sua autonomia de escolha e interação entre pares, tornando-a agente de sua própria experiência, e ainda  levando em conta que os saberes atuais sobre a infância agregam o lúdico na prática pedagógica como um rico instrumento de desenvolvimento da criança, principalmente na educação  infantil dos zero aos seis anos, é importante frisar que a educação não deve apropriar-se deste brincar de forma a estruturá-lo rigidamente, regrando-o e delimitando espaços, horários  e materiais que devem ser usados como brinquedos, porque desta forma distancia a criança  de sua essência mais profunda, privando-a da liberdade e da autenticidade que o  brincar confere.

A capacidade de brincar  está na base do desenvolvimento  do pensamento lógico e, na verdade, na base de todo desenvolvimento humano. Mas afinal, quais são as brincadeiras mais adequadas ao desenvolvimento infantil? ‘Eu costumo dizer que se os pais não atrapalharem, a criança brinca com qualquer coisa’, afirma a psicóloga. ‘É só permitir que haja espaço e tempo para a criança brincar.’   ( CERES ARAÚJO apud CAMPOS, 2007, p.50).

Cristiane Richter

Olhares controlados

Ao longo da história social o conceito sobre infância foi se construindo e modificando, aderindo às novas perspectivas, organizando a sociedade, as idéias que nela circulam e assim interferindo na produção dos brinquedos como instrumentos  às crianças  direcionadas para  orientar  suas atividades.

Qualquer conhecimento que fica a serviço de um controle, que artificializa, é ruim. Então, também é preciso pensar se a criança está tendo liberdade para realizar seu próprio aprendizado ou se o adulto está muito ansioso para estar à frente neste processo.

O desenvolvimento de uma cultura que passou a valorizar os potenciais de uma criança como o futuro de uma nação, permitiram o controle da infância e desta forma o brinquedo e as orientações de como brincar são potentes instrumentos que interferem no imaginário infantil e na  sua subjetividade, pois a prioridade passou a ser a  aquisição de habilidades e competências  e o desenvolvimento da inteligência  e não o estímulo da fantasia e da imaginação.

Cristiane Richter

Brinquedos atuais

Brinquedos e brincadeiras foram se modificando ao longo do tempo como um resultado da transformação das necessidades socioculturais. Os brinquedos atuais, visando incentivar a aquisição de competências, possuem inúmeros recursos materiais  e formas sofisticadas,  como por exemplo os brinquedos eletro-eletrônicos que acumulam inúmeras informações e estímulos. Embora as crianças de hoje continuem a  brincar,   a maioria dos  brinquedos atuais não prioriza a imaginação e a fantasia como um recurso de importante no processo do desenvolvimento infantil.

Atualmente os brinquedos parecem brincar por si só,  limitam ao que propõem oferecer, ou seja, “a prioris” bem definidos,  não ampliam e  tampouco convidam à criança para o mundo do faz-de-conta. Na era do objeto-brinquedo-mercadoria, muitos  são mal acabados e de pouca qualidade, sugerindo sua fugacidade e seu caráter substituível, outros são de materiais cada vez mais sofisticados  representando objetos de consumo que despertam na criança os sentimentos de posse e o desejo de te-los, dificultando e desmotivando o prazer do ato de brincar em si-mesmo, desconstituindo a relação  primal entre o brinquedo e o brincar.

Cristiane Richter

Brincando de ser…


Quando brincamos, aprendemos a nos relacionar com nós mesmos, a entender nossos potenciais, emoções, possibilidades e limites. Brincando, estimulamos memória e raciocínio, motivando o auto-aperfeiçoamento, aprendemos com os erros, desenvolvemos a linguagem e a coordenação motora, nutrimos a  imaginação. É  quando imaginamos um mundo criado pelas mais ricas fantasias do inconsciente, como  também  representamos  o mundo concreto, real e objetivo, e desta forma treinamos para nele atuar.

Para Friedmann ( 2005, p.88) o brincar resgata a alma da criança, pois brincando o ser humano se mostra em sua essência, envolvendo toque, cooperação, afeto, competição, ganhos e perdas. Ao brincar a criança se emociona, ri, chora, vibra, perde a paciência, se irrita, fica nervosa e ansiosa, aliviada e feliz.  Ao brincar, imita, sonha, fantasia, imagina, fazendo com que medos e desejos se tornem realidade e sejam representados de maneira segura. Enuncia assim, a autora com propriedade: “O brincar descortina um mundo possível e imaginário para os brincantes. O brincar convida a ser eu mesmo.” 

Cristiane Richter