Vista a fantasia!

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Podemos dizer que brincar é como sonhar acordado. É   através do rebaixamento da consciência e do estímulo da fantasia que damos vazão ao imaginário lidando com sua linguagem e representações simbólicas, que abarcam  pensamentos, sentimentos, impressões e memória. Trata-se da realidade interna  e subjetiva, transcendendo o externo e concreto através de imagens do mundo subjetivo.

O material  com que se deve operar na análise do inconsciente não consta apenas de sonhos. Há também os produtos  do inconsciente denominados fantasias. Essas fantasias são como uma espécie  de sonhos ocorridos durante o estado de vigília ou como visões  e inspirações.

A fantasia permite ao ego o contato com os conteúdos internos, psíquicos e inconscientes, tornando-os conscientes e transformando-se a partir dos conteúdos que emergem. Todavia, como a criança em idade tenra  ainda está mais próxima do inconsciente do que da estruturação egóica definida, a fantasia não necessita de muita energia para emergir  sendo espontânea e sem resistências, possibilitando a manifestação não apenas de conteúdos reprimidos, mas também  dos conteúdos criativos do inconsciente.

Para Jung  a fantasia é a ponte entre as exigências inconciliáveis entre a criança e seus conteúdos internos, onde  em uma atividade criativa como o brincar  é possível a adaptação ao mundo externo.

A atividade inconsciente da fantasia segundo o Jung,  pertence a duas categorias, uma de caráter pessoal que remonta às experiências pessoais , esquecidas e reprimidas  que podem ser acessadas através de uma anamnese, denominada de inconsciente individual; e a segunda  de caráter  coletivo  que não pode ser reduzida às experiências passadas do indivíduo e portanto não foi adquirida individualmente mas sim de um substrato psíquico coletivo no qual denominou inconsciente coletivo.

A fantasia é de importância vital porque estabelece um elo natural entre os processos conscientes e inconscientes, e entre o mundo interior e exterior. É produto da atividade lúdica entre  os arquétipos do inconsciente coletivo e as circunstâncias da vida do próprio sujeito.

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É tempo de fantasia!

Até aproximadamente o século XVIII as bonecas  eram utilizadas  para   magia,  fantasia,  arte e religião. Originalmente, assim como os brinquedos em geral, também não eram destinadas às crianças, mas sim aos adultos exclusivistas como sacerdotes, religiosos e curandeiros ,uma vez que se acreditava terem elas o poder da vida e da morte sobre as pessoas. Ainda hoje, sobrevivem tradições que abarcam tal crença como o Vodu, o Cadomblé e a Ubanda, uma vez que manipulam imagens humanas carregadas de misticismo e poderes sobrenaturais.

 “Criar figuras humanas dotadas de movimento (animadas)  é um costume antiqüíssimo, possivelmente relacionado em suas origens a sentimentos  e rituais religiosos; a partir dessa origem sagrada, os costume se desdobrou ao longo da história e das culturas humanas com diferentes formas e funções, de caráter lúdico, expressivo e de comunicação ou informação.”

 Aos poucos passaram também a serem destinadas à infância, embora na Grécia e Roma antigas, as crianças com elas brincavam, eram feitas de sacos cheios de grãos ou de terra cozida,  servindo simultaneamente à inúmeros rituais de casamentos e preservação dos lares, mantendo sua ambiguidade.

Segundo Friedmann (2005), na civilização grega  as bonecas de terra cozida e membros articulados, já eram encontradas nos quartos das crianças. Brincar de boneca era uma atividade relacionada com os ritos da fecundidade e tinham valor de oferenda ao sagrado.

” Durante séculos ,  os seres humanos tiveram a sensação de que das bonecas emanava algo de sagrado e de maná – um pressentimento irresistível e impressionante que influencia as pessoas, fazendo com que mudem espiritualmente. (…) Acredita-se que as bonecas sejam impregnadas de vida por quem as criou. Ela são usadas em ritos, rituais, vodus, feitiços de amor e de maldade. Elas são empregadas como símbolos de autoridade e talismãs para lembrar à pessoa da sua própria força.”

Na Idade Média, as bonecas, carregadas de simbolismo da mitologia Greco-romana, também foram condenadas à fogueira. A partir de então, apenas sobreviveram as bonecas de presépio e os teatros de marionetes que contavam histórias cristãs,  desta forma as bonecas voltaram ao universo dos adultos e de forma restrita.

“Originalmente, a animação de bonecos serviu principalmente a propósitos rituais: representar convincentemente as entidades sagradas manifestando seu poder. […] A expansão do Cristianismo na Europa bárbara assimila as antigas tradições ao mesmo tempo que, esporadicamente, procura reprimí-las como manifestações pagãs. Assim, em certas fases, a representação tridimensional da Divindade e dos santos é considerada herética e banida, mas sua utilidade didática é doutrinaria acaba prevalecendo. É por meio de imagens pintadas ou esculpidas e, em muitos casos, pelo uso de imagens animadas em representações teatrais nas festividades religiosos , que a doutrina e história religiosa são transmitidas para populações majoritariamente analfabetas.”

Cristiane Richter

A infância em toda sua plenitude

É  importante olhar para a criança como uma semente que carrega em si todo potencial de tornar-se àquilo no qual se destina, e assim preservar aquilo que já existe, incentivando a autenticidade e a espontaneidade de cada um ser o que é em sua essência. Para tanto, deve-se estimular o contato com as imagens  internas e com a subjetividade, reconhecendo e respeitando  potenciais e limites, diferente de como acontece na sociedade atual, que as substituem por imagens externas de como deveria ser, desconsiderando particularidades e diferenças de cada ser humano, massificando, mecanizando e automatizando.

Vivemos uma crise de confiança, uma profunda crise de valores, uma carência de raízes que dêem significado às nossas vidas: é necessário uma re-conexão com nossos sinais internos. Com relação às crianças , a nossa sociedade, a nossa cultura está abafando o seu ser, a sua alma, tirando-lhes a oportunidade de serem elas mesmas.

Cristiane Richter

A criança

” O homem precisa voltar às suas origens, pessoais e raciais, e aprender de novo as verdades da imaginação. E nessa tarefa seus estranhos instrutores são a  criança, que mal entrou no mundo racional do tempo e do espaço, e o louco, que apenas escapou dele. Pois somente esses dois estão, até certo ponto, libertados da prisão desapiedada dos acontecimentos diários, o impacto incessante dos sentidos externos, que oprimem o resta da humanidade. Esse curioso par viaja ligeiro e empreende jornadas  distantes e solitárias, às vezes trazendo , ao voltar, um ramo luzente  da Floresta de Ouro pela qual vagueou.” ( MCGLASHAN apud NICHOLS, 2007, p.51).

Cristiane Richter

Brincando de ser…


Quando brincamos, aprendemos a nos relacionar com nós mesmos, a entender nossos potenciais, emoções, possibilidades e limites. Brincando, estimulamos memória e raciocínio, motivando o auto-aperfeiçoamento, aprendemos com os erros, desenvolvemos a linguagem e a coordenação motora, nutrimos a  imaginação. É  quando imaginamos um mundo criado pelas mais ricas fantasias do inconsciente, como  também  representamos  o mundo concreto, real e objetivo, e desta forma treinamos para nele atuar.

Para Friedmann ( 2005, p.88) o brincar resgata a alma da criança, pois brincando o ser humano se mostra em sua essência, envolvendo toque, cooperação, afeto, competição, ganhos e perdas. Ao brincar a criança se emociona, ri, chora, vibra, perde a paciência, se irrita, fica nervosa e ansiosa, aliviada e feliz.  Ao brincar, imita, sonha, fantasia, imagina, fazendo com que medos e desejos se tornem realidade e sejam representados de maneira segura. Enuncia assim, a autora com propriedade: “O brincar descortina um mundo possível e imaginário para os brincantes. O brincar convida a ser eu mesmo.” 

Cristiane Richter