Criatividade e brinquedos atuais

200189736-001Embora  o brinquedo possa ser usado como um instrumento de dominação  que busca forjar pessoas em desenvolvimento  permitindo uma discussão de como a sociedade capitalista trabalha, forma e educa as crianças,  não comporta apenas uma relação unilateral, pois estas encontram nos brinquedos um meio pelo qual externam suas proposições para transformar o mundo ao seu modo, desenvolvendo novos significados, através de uma prática criativa que recusa o universo de coisas prontas, numa ação repetitiva e reprodutora  de figuras e sentidos pré estabelecidos. “ Relativiza-se , portanto, a idéia segundo a qual a criança é passiva perante o brinquedo, ficando à mercê o seus significados explícitos.”

Outra forma clara pela qual a criança se recusa a submeter a dominação é sua recusa referente a determinados brinquedos, que simplesmente são deixados de lado, ignorados ou destruídos.

Os adultos, aparentemente ausentes, deixam-lhes programadas  algumas mensagens, só que as crianças não se submetem passivamente ao adestramento. Reinterpretam sentido, atribuem outros usos, nem de longe imagináveis na representação adulta.

As crianças ao brincar usam o brinquedo conforme sua livre vontade,  são espontâneas, deixam sua imaginação fluir permitindo que um pedaço de pau vire gente ou uma folha um barco, negando  o empirismo comum do adulto, a criança vai além das aparências. Ao manipular seu brinquedo a criança projeta-se no mundo, tratando-se portanto de um movimento de dentro para fora.

“No brinquedo, o empirismo  dos significados óbvios e visíveis não é capaz de contentar as crianças. Elas querem sonhar, exercitar todos sentidos com seus brinquedos e, junto a eles, explorar, sentir, conhecer o mundo.”

Monteiro Lobato nos presenteia neste sentido: “Pedrinho armou a mesa da festa debaixo de uma laranjeira do pomar e botou em redor todos os convivas. Lá estavam Dona Benta, tia Anastácia e vários conhecidos e parentes, todos representados por pedras, tijolos e pedaços de pau. O inspetor de quarteirão, um velho amigo de dona Benta que às vezes aparecia pelo sítio, era figurado por um toco de pau com uma dentadura de casca de laranja na boca.”

A criança continua brincando, mas talvez venha  desistindo de insistir em utilizar-se dos mais variados  objetos  para representar os personagens de sua imaginação, influenciada pelas necessidades e prioridades atuais de adquirir competências e habilidades sociais.  Com seus brinquedos já prontos, muitas vezes conferindo-lhe  apenas status social, acaba abafando a expressão mais autêntica de seu ser através  das fantasias  que provém de seu inconsciente.
O desafio portanto compreende no exercício da criatividade na recriação  do significado do brinquedo, uma vez que  ao contrário  do que se dá com os adultos,  as crianças não procuram no brinquedo uma forma de evasão, mas sim de inclusão no mundo,  explorando e conhecendo melhor o real, criando-o e recriando-o à sua maneira, razão pela qual nem sempre atribuem ao brinquedo o sentido óbvio como fazem os adultos.

Ao criar o brinquedo do seu entretenimento ou ao atribuir novas significações ao brinquedo que recebe pronto, a criança nega as rédeas e as prisões adultas que lhe reservaram. E se renova, liberando  seus sentidos, em todos os sentidos.”

Para ilustrar, Monteiro Lobato: “Uma tarde Pedrinho zangou-se resolveu substituí-lo por um representante. – Rabicó não vale a pena – disse ele aborrecido. Não sabe brincar, não se comporta. O melhor é isso, querem ver? – e saiu. Foi ao quintal e trouxe um vidro vazio de óleo de rícino que andava jogado por lá. – Está aqui. De agora em diante o noivo será representado por este vidro azul.”

A infância em toda sua plenitude

É  importante olhar para a criança como uma semente que carrega em si todo potencial de tornar-se àquilo no qual se destina, e assim preservar aquilo que já existe, incentivando a autenticidade e a espontaneidade de cada um ser o que é em sua essência. Para tanto, deve-se estimular o contato com as imagens  internas e com a subjetividade, reconhecendo e respeitando  potenciais e limites, diferente de como acontece na sociedade atual, que as substituem por imagens externas de como deveria ser, desconsiderando particularidades e diferenças de cada ser humano, massificando, mecanizando e automatizando.

Vivemos uma crise de confiança, uma profunda crise de valores, uma carência de raízes que dêem significado às nossas vidas: é necessário uma re-conexão com nossos sinais internos. Com relação às crianças , a nossa sociedade, a nossa cultura está abafando o seu ser, a sua alma, tirando-lhes a oportunidade de serem elas mesmas.

Cristiane Richter

Brinquedos atuais

Brinquedos e brincadeiras foram se modificando ao longo do tempo como um resultado da transformação das necessidades socioculturais. Os brinquedos atuais, visando incentivar a aquisição de competências, possuem inúmeros recursos materiais  e formas sofisticadas,  como por exemplo os brinquedos eletro-eletrônicos que acumulam inúmeras informações e estímulos. Embora as crianças de hoje continuem a  brincar,   a maioria dos  brinquedos atuais não prioriza a imaginação e a fantasia como um recurso de importante no processo do desenvolvimento infantil.

Atualmente os brinquedos parecem brincar por si só,  limitam ao que propõem oferecer, ou seja, “a prioris” bem definidos,  não ampliam e  tampouco convidam à criança para o mundo do faz-de-conta. Na era do objeto-brinquedo-mercadoria, muitos  são mal acabados e de pouca qualidade, sugerindo sua fugacidade e seu caráter substituível, outros são de materiais cada vez mais sofisticados  representando objetos de consumo que despertam na criança os sentimentos de posse e o desejo de te-los, dificultando e desmotivando o prazer do ato de brincar em si-mesmo, desconstituindo a relação  primal entre o brinquedo e o brincar.

Cristiane Richter

A criança

” O homem precisa voltar às suas origens, pessoais e raciais, e aprender de novo as verdades da imaginação. E nessa tarefa seus estranhos instrutores são a  criança, que mal entrou no mundo racional do tempo e do espaço, e o louco, que apenas escapou dele. Pois somente esses dois estão, até certo ponto, libertados da prisão desapiedada dos acontecimentos diários, o impacto incessante dos sentidos externos, que oprimem o resta da humanidade. Esse curioso par viaja ligeiro e empreende jornadas  distantes e solitárias, às vezes trazendo , ao voltar, um ramo luzente  da Floresta de Ouro pela qual vagueou.” ( MCGLASHAN apud NICHOLS, 2007, p.51).

Cristiane Richter

Brincando de ser…


Quando brincamos, aprendemos a nos relacionar com nós mesmos, a entender nossos potenciais, emoções, possibilidades e limites. Brincando, estimulamos memória e raciocínio, motivando o auto-aperfeiçoamento, aprendemos com os erros, desenvolvemos a linguagem e a coordenação motora, nutrimos a  imaginação. É  quando imaginamos um mundo criado pelas mais ricas fantasias do inconsciente, como  também  representamos  o mundo concreto, real e objetivo, e desta forma treinamos para nele atuar.

Para Friedmann ( 2005, p.88) o brincar resgata a alma da criança, pois brincando o ser humano se mostra em sua essência, envolvendo toque, cooperação, afeto, competição, ganhos e perdas. Ao brincar a criança se emociona, ri, chora, vibra, perde a paciência, se irrita, fica nervosa e ansiosa, aliviada e feliz.  Ao brincar, imita, sonha, fantasia, imagina, fazendo com que medos e desejos se tornem realidade e sejam representados de maneira segura. Enuncia assim, a autora com propriedade: “O brincar descortina um mundo possível e imaginário para os brincantes. O brincar convida a ser eu mesmo.” 

Cristiane Richter