Vista a fantasia!

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Podemos dizer que brincar é como sonhar acordado. É   através do rebaixamento da consciência e do estímulo da fantasia que damos vazão ao imaginário lidando com sua linguagem e representações simbólicas, que abarcam  pensamentos, sentimentos, impressões e memória. Trata-se da realidade interna  e subjetiva, transcendendo o externo e concreto através de imagens do mundo subjetivo.

O material  com que se deve operar na análise do inconsciente não consta apenas de sonhos. Há também os produtos  do inconsciente denominados fantasias. Essas fantasias são como uma espécie  de sonhos ocorridos durante o estado de vigília ou como visões  e inspirações.

A fantasia permite ao ego o contato com os conteúdos internos, psíquicos e inconscientes, tornando-os conscientes e transformando-se a partir dos conteúdos que emergem. Todavia, como a criança em idade tenra  ainda está mais próxima do inconsciente do que da estruturação egóica definida, a fantasia não necessita de muita energia para emergir  sendo espontânea e sem resistências, possibilitando a manifestação não apenas de conteúdos reprimidos, mas também  dos conteúdos criativos do inconsciente.

Para Jung  a fantasia é a ponte entre as exigências inconciliáveis entre a criança e seus conteúdos internos, onde  em uma atividade criativa como o brincar  é possível a adaptação ao mundo externo.

A atividade inconsciente da fantasia segundo o Jung,  pertence a duas categorias, uma de caráter pessoal que remonta às experiências pessoais , esquecidas e reprimidas  que podem ser acessadas através de uma anamnese, denominada de inconsciente individual; e a segunda  de caráter  coletivo  que não pode ser reduzida às experiências passadas do indivíduo e portanto não foi adquirida individualmente mas sim de um substrato psíquico coletivo no qual denominou inconsciente coletivo.

A fantasia é de importância vital porque estabelece um elo natural entre os processos conscientes e inconscientes, e entre o mundo interior e exterior. É produto da atividade lúdica entre  os arquétipos do inconsciente coletivo e as circunstâncias da vida do próprio sujeito.

Criatividade e brinquedos atuais

200189736-001Embora  o brinquedo possa ser usado como um instrumento de dominação  que busca forjar pessoas em desenvolvimento  permitindo uma discussão de como a sociedade capitalista trabalha, forma e educa as crianças,  não comporta apenas uma relação unilateral, pois estas encontram nos brinquedos um meio pelo qual externam suas proposições para transformar o mundo ao seu modo, desenvolvendo novos significados, através de uma prática criativa que recusa o universo de coisas prontas, numa ação repetitiva e reprodutora  de figuras e sentidos pré estabelecidos. “ Relativiza-se , portanto, a idéia segundo a qual a criança é passiva perante o brinquedo, ficando à mercê o seus significados explícitos.”

Outra forma clara pela qual a criança se recusa a submeter a dominação é sua recusa referente a determinados brinquedos, que simplesmente são deixados de lado, ignorados ou destruídos.

Os adultos, aparentemente ausentes, deixam-lhes programadas  algumas mensagens, só que as crianças não se submetem passivamente ao adestramento. Reinterpretam sentido, atribuem outros usos, nem de longe imagináveis na representação adulta.

As crianças ao brincar usam o brinquedo conforme sua livre vontade,  são espontâneas, deixam sua imaginação fluir permitindo que um pedaço de pau vire gente ou uma folha um barco, negando  o empirismo comum do adulto, a criança vai além das aparências. Ao manipular seu brinquedo a criança projeta-se no mundo, tratando-se portanto de um movimento de dentro para fora.

“No brinquedo, o empirismo  dos significados óbvios e visíveis não é capaz de contentar as crianças. Elas querem sonhar, exercitar todos sentidos com seus brinquedos e, junto a eles, explorar, sentir, conhecer o mundo.”

Monteiro Lobato nos presenteia neste sentido: “Pedrinho armou a mesa da festa debaixo de uma laranjeira do pomar e botou em redor todos os convivas. Lá estavam Dona Benta, tia Anastácia e vários conhecidos e parentes, todos representados por pedras, tijolos e pedaços de pau. O inspetor de quarteirão, um velho amigo de dona Benta que às vezes aparecia pelo sítio, era figurado por um toco de pau com uma dentadura de casca de laranja na boca.”

A criança continua brincando, mas talvez venha  desistindo de insistir em utilizar-se dos mais variados  objetos  para representar os personagens de sua imaginação, influenciada pelas necessidades e prioridades atuais de adquirir competências e habilidades sociais.  Com seus brinquedos já prontos, muitas vezes conferindo-lhe  apenas status social, acaba abafando a expressão mais autêntica de seu ser através  das fantasias  que provém de seu inconsciente.
O desafio portanto compreende no exercício da criatividade na recriação  do significado do brinquedo, uma vez que  ao contrário  do que se dá com os adultos,  as crianças não procuram no brinquedo uma forma de evasão, mas sim de inclusão no mundo,  explorando e conhecendo melhor o real, criando-o e recriando-o à sua maneira, razão pela qual nem sempre atribuem ao brinquedo o sentido óbvio como fazem os adultos.

Ao criar o brinquedo do seu entretenimento ou ao atribuir novas significações ao brinquedo que recebe pronto, a criança nega as rédeas e as prisões adultas que lhe reservaram. E se renova, liberando  seus sentidos, em todos os sentidos.”

Para ilustrar, Monteiro Lobato: “Uma tarde Pedrinho zangou-se resolveu substituí-lo por um representante. – Rabicó não vale a pena – disse ele aborrecido. Não sabe brincar, não se comporta. O melhor é isso, querem ver? – e saiu. Foi ao quintal e trouxe um vidro vazio de óleo de rícino que andava jogado por lá. – Está aqui. De agora em diante o noivo será representado por este vidro azul.”

Olhares controlados

Ao longo da história social o conceito sobre infância foi se construindo e modificando, aderindo às novas perspectivas, organizando a sociedade, as idéias que nela circulam e assim interferindo na produção dos brinquedos como instrumentos  às crianças  direcionadas para  orientar  suas atividades.

Qualquer conhecimento que fica a serviço de um controle, que artificializa, é ruim. Então, também é preciso pensar se a criança está tendo liberdade para realizar seu próprio aprendizado ou se o adulto está muito ansioso para estar à frente neste processo.

O desenvolvimento de uma cultura que passou a valorizar os potenciais de uma criança como o futuro de uma nação, permitiram o controle da infância e desta forma o brinquedo e as orientações de como brincar são potentes instrumentos que interferem no imaginário infantil e na  sua subjetividade, pois a prioridade passou a ser a  aquisição de habilidades e competências  e o desenvolvimento da inteligência  e não o estímulo da fantasia e da imaginação.

Cristiane Richter